Editora Casa das Musas

Criada em Brasília em 2003, a Casa das Musas nasceu da vontade de compartilhar um espaço onde razão e sensibilidade tomam as múltiplas formas das palavras escritas: o universo dos livros. Visando espelhar a fusão do intelecto e do espírito humano num mundo cada vez mais complexo, primando pelas grandes reflexões, a Casa das Musas busca através de suas linhas editoriais solidificar o gosto pela leitura e atentar para os valores espirituais e poéticos da contemporaneidade.

6.02.2006

Crônica de um livro voador

O instante mais mágico da feitura do livro foi o seu primeiro vôo.

Obviamente, ninguém esperava que ele criasse asas e voasse, mas foi assim mesmo que aconteceu.

Depois das encantadoras horas de escritura, dos prazerosos momentos de aprimoramento dos textos, das intermináveis conversas sobre os seus sentidos e níveis; depois da incansável busca por meios de transformar o conjunto de textos em um objeto-livro, houve o divertido processo de sua elaboração: papel, letras, cores, quadros, desenhos, margens, nomes e todos os elementos foram tratados com a minúcia correspondente à força de cada detalhe. A gestação do objeto foi tão cuidadosa quão delicado era seu conteúdo.

Finalmente, chegou o dia em que fui buscar o livro prontinho na gráfica, como viria a fazer com muitos outros depois. Satisfeitíssima com o resultado, voltei para casa com humor de passarinho. Passei um fim de tarde agradável, arrumando a sala para acomodar as caixas que seriam guardadas ali.

Esperei as crianças dormirem e quando o silêncio se fez, peguei um exemplar, o pus sobre o sofá, apoiado numa almofada. Direcionei para ele uma luminária de 90 watts e me sentei na poltrona em frente, a uma distância que me permitisse adotar a visão do personagem desavisado que pousa o seu olhar sobre um objeto de tamanha vivacidade de cores e movimentos que não consegue deixar de nele deter a sua atenção.

E, de fato, não desviei mais o olhar daquela capa. Ainda não tinha entrado totalmente na pele do tal personagem desavisado e, de vez em quando, pensava que não havia mais dúvida, o livro já havia deixado meu ventre e estava preste a iniciar sua jornada do lado de fora.

Logo, da impressão geral de vivacidade, fui aos detalhes daquele livro-quadro riquíssimo em plantas, flores, pássaros, borboletas, relva, nuvens, luzes, água corrente, azuis profundos e laranjas chamativos. Então, exatamente quando observei o espelho transparente onde estavam inscritos o título e o nome dos autores, percebi que o livro se mexia. E não é que ele, literalmente, criou asas e voou? Na mesma hora, abandonei o personagem e voltei a ser a autora. Quis correr atrás do livro e apanhá-lo no ar, mas ele escapou: era mais rápido, mais leve, mais livre! Então, só me restou olhar a sua dança pelos ares do mundo...

Florence Dravet, sobre o Arvorescendo – livro para espíritos sensíveis.


6.01.2006


Medalhão

Águas de relâmpago verde que anunciam o êxtase do rosto amado,
águas cheias
de velhos crimes, águas amorfas,
águas assaltadas por uma sagração
próxima...
Ainda que tenha de sofrer as reprimendas da sua memória

eliminada, o fontanário saúda de alto o amor absoluto do outono.
Sabedoria idêntica, tu que compões o futuro
sem acreditar no peso que
desencoraja,
faz com que ele sinta crescer no seu corpo a eletricidade da
viagem

René Char
Sozinhos permanecem (1938-1944)
In: Furor e mistério

2.01.2006

Um copista perfumado

"Como fazer para decifrar uma flor? Na linguagem das coisas sublimes, existe uma mensagem posta "no ar". Em cada pólen solto ao vento há uma carta, escrita em papel-pétala, mas que (quase) ninguém sabe interpretar. Quantas são as pétalas de uma flor? Acho que uma flor é como um livro. Tem mais pérolas que leitores. Nunca pára de dizer o que tem para dizer. Quem escreveu a pétala? Um copista perfumado".

Gustavo de Castro e Silva, in "Filosofia da Comunicaçào (Comunicosofia)
Casa das Musas, 2005